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MACHISMO ALÉM DA HETERONORMATIVIDADE: COMO ATITUDES MACHISTAS TAMBÉM ATRAVESSAM CASAIS GAYS E LÉSBICOS

  • Foto do escritor: Januário Mourão
    Januário Mourão
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

Casais gays e lésbicos, embora rompam com a lógica heteronormativa, não estão imunes à reprodução de atitudes machistas.

Quando falamos de machismo, é comum associá-lo exclusivamente às relações heterossexuais, especialmente à dominação masculina sobre mulheres. No entanto, o machismo é um sistema cultural e estrutural, aprendido desde a infância, que organiza expectativas de poder, controle, afeto e hierarquia — e, por isso, não desaparece automaticamente em relações entre pessoas do mesmo gênero. Casais gays e lésbicos, embora rompam com a lógica heteronormativa, não estão imunes à reprodução de atitudes machistas.


O machismo não se limita ao gênero de quem se relaciona, mas às normas internalizadas sobre força, autoridade, ciúme, controle emocional, papéis domésticos e valorização do masculino. O patriarcado é um sistema que ensina todos — homens, mulheres e pessoas LGBTQIA+ — a desempenharem papéis hierárquicos. Assim, mesmo fora da heterossexualidade compulsória, essas lógicas podem ser reproduzidas.


Entre homens gays: masculinidade tóxica e poder


Em casais gays, o machismo pode aparecer na valorização excessiva de padrões de masculinidade hegemônica: quem é “mais macho”, quem domina sexualmente, quem tem mais controle financeiro ou emocional. Práticas como desqualificar homens afeminados, normalizar ciúmes como prova de amor, ou naturalizar comportamentos agressivos e competitivos são expressões claras de machismo. Além disso, a reprodução de papéis “ativo/passivo” como equivalentes a “dominante/submisso” reforça hierarquias típicas do patriarcado.


Entre mulheres lésbicas: desigualdade disfarçada de cuidado


Em relações lésbicas, o machismo pode se manifestar de forma mais sutil, muitas vezes travestido de cuidado ou proteção. A sobrecarga emocional e doméstica costuma recair sobre uma das parceiras, especialmente aquela socialmente lida como mais “feminina”. Há também a reprodução da ideia de que uma parceira deve “liderar”, “decidir” ou “sustentar” a relação, espelhando papéis tradicionalmente masculinos. Como aponta Judith Butler, os gêneros são performativos — e isso inclui a repetição de roteiros de poder mesmo quando não há homens na relação.


Violência, silenciamento e negação


Outro aspecto preocupante é a dificuldade de reconhecer violência em casais homoafetivos. O machismo ensina que violência só existe quando há um homem e uma mulher, o que invisibiliza abusos psicológicos, físicos e simbólicos entre pessoas do mesmo gênero. Isso gera silenciamento, culpa e falta de políticas públicas adequadas para acolhimento dessas vítimas.


Reconhecer que o machismo também atravessa casais gays e lésbicos não significa deslegitimar essas relações, mas assumir um compromisso ético com vínculos mais justos. Amar fora da norma não garante, por si só, relações livres de opressão. É preciso questionar privilégios, revisar comportamentos, dividir tarefas, negociar afetos e romper com a ideia de que alguém deve mandar e alguém deve ceder.

 

 
 
 

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