ESQUERDOMACHO – A ORIGEM E SEUS IMPACTOS NEGATIVOS NA LUTA CONTRA O MACHISMO
- Januário Mourão

- 29 de jan.
- 3 min de leitura

O termo esquerdomacho surge no Brasil no início da década de 2010, especialmente no contexto da expansão das redes sociais, do fortalecimento dos feminismos contemporâneos e da intensificação dos debates sobre gênero, poder e privilégios.
O termo esquerdomacho surge no Brasil no início da década de 2010, especialmente no contexto da expansão das redes sociais, do fortalecimento dos feminismos contemporâneos e da intensificação dos debates sobre gênero, poder e privilégios. A expressão não nasce na academia, mas nos movimentos feministas, em coletivos autônomos e nos espaços militantes de esquerda, como uma forma de nomear uma contradição recorrente: homens que defendem discursos progressistas, mas reproduzem práticas machistas no cotidiano.
Nomear esse comportamento escroto foi um gesto político. Dar nome é tornar visível. Assim como outros conceitos críticos criados pelo feminismo, “esquerdomacho” funciona como uma categoria de denúncia, não como xingamento gratuito, mas como ferramenta de análise das relações de poder dentro da própria esquerda.
Essa crítica não é exclusivamente brasileira. No debate feminista, surgem expressões semelhantes que ajudam a compreender esse fenômeno em escala global. Uma delas é “brocialist”, junção das palavras bro (gíria para “cara”, associada à masculinidade juvenil, competitiva e autocentrada) e socialist. O termo passa a circular em fóruns feministas e em ambientes acadêmicos informais a partir dos anos 2000, sendo popularizado por autoras e militantes como Eve Weinbaum e Andi Zeisler, para criticar homens de esquerda que defendem justiça econômica e redistribuição de renda, mas desconsideram ou ridicularizam as pautas feministas, tratando o machismo como um problema secundário ou “divisivo”.
Outro termo relevante é “manarchist”, fusão de man (homem) e anarchist. A expressão surge como crítica interna a certos espaços do anarquismo e do autonomismo, sobretudo a partir das décadas de 1990 e 2000, quando feministas anarquistas passam a denunciar a incoerência entre o discurso antiautoritário e as práticas profundamente patriarcais de muitos homens nesses movimentos. O manarchist rejeita o Estado, a hierarquia e a dominação — exceto quando essas estruturas o beneficiam enquanto homem.
O termo brasileiro “esquerdomacho” dialoga diretamente com essas expressões, mas ganha contornos próprios ao se inserir num contexto marcado por desigualdades raciais, de classe e de gênero profundas, além de uma tradição política em que o machismo frequentemente foi tratado como um “desvio individual” e não como uma estrutura de poder. Assim como brocialist e manarchist, o “esquerdomacho” não é definido apenas por sua ideologia declarada, mas por sua recusa prática em confrontar os próprios privilégios.
As consequências desse comportamento para a luta contra o machismo são severas. Em primeiro lugar, ele corrói a confiança das mulheres nos espaços progressistas, produzindo afastamento, silenciamento e abandono da militância. Em segundo, transforma o feminismo em performance discursiva, esvaziando seu potencial transformador e reduzindo-o a uma estética politicamente correta.
O papel dos homens na luta contra o machismo e às violências que ele causa principalmente nas mulheres tem que estar relacionada a uma mudança real de comportamento pessoal (principalmente quando ninguém está olhando), combater o machismo estrutural e a violência contra as mulheres.
NÃO BASTA SER CONTRA O MACHISMO, TEM QUE SER ANTIMACHISTA!
Além disso, essas figuras contribuem para o adoecimento político e emocional das mulheres, que se veem obrigadas a disputar espaços, justificar denúncias e provar violências em ambientes que, teoricamente, deveriam ser seguros e emancipatórios. O resultado é um feminismo constantemente em posição defensiva, lutando não apenas contra o conservadorismo explícito, mas contra o machismo travestido de consciência social.
A crítica ao “esquerdomacho”, brocialist ou manarchist não visa fragmentar a luta, mas radicalizá-la. Ela afirma que não há coerência política possível enquanto a igualdade de gênero for tratada como acessória. Combater o machismo exige mais do que vocabulário progressista: exige transformação ética, relacional e estrutural — inclusive, e sobretudo, entre aqueles que dizem lutar por um mundo mais justo.
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